Inauguramos o espaço de entrevistas do EFUFSJ apresentando uma breve conversa com o professor canadense Robert A. Stebbins, do departamento de sociologia da University of Calgary, no Canadá. Nascido em 1938 nos Estados Unidos (naturalizado canadense em 1980), doutourou-se em Sociologia em 1964 na Universidade de Minnesota. Já lecionou em diversas universidades norte-americanas. Além disso, presidiu algumas associações científicas ligadas à sociologia e ao lazer no Canadá.
O prof. Dr. Stebbins começou a se envolver com as pesquisas em lazer em 1973, quando começou sua extensa pesquisa com amadores de diversas categorias (músicos, esportistas, atores, astrônomos, arqueólogos, etc.). a partir de 1982, começou a publicar o que seria a base de sua concepção de lazer: a perspectiva do lazer sério. Essa perspectiva abrange aquelas pessoas que se dedicam com seriedade a algumas atividades de lazer, investindo em sua prática e se desenvolvendo dentro dessas atividades. Stebbins classifica três categorias para o lazer sério: o amador, o hobbista e o voluntário social. Robert Stebbins já publicou 37 livros e vários outros artigos e demais publicações.
Confira abaixo a entrevista, que foi realizada por e-mail:
EFUFSJ: Como o senhor desenvolveu a perspectiva do lazer sério? Podemos dizer que ela é contrária a outras perspectivas e teorias?
Robert Stebbins: A perspectiva do lazer sério (PLS) é uma concepção que sintetiza três principais formas de lazer: sério, casual e planejadas*. Como eu ampliei os meus interesses de investigação entre os lazeres sério, casual e planejadas, percebi que os três tipos são relacionados uns aos outros de muitas maneiras e que um quadro mais abrangente seria necessário para definir esses caminhos. Por exemplo, uma atividade de lazer casual pode ser tão interessante que o participante poderá querer continuar a experiência, decidindo levá-la como um hobby. E a pesquisa mostrou que uma atividade de lazer sério pode ser intensa, gerando uma necessidade de descanso entre seus participantes. Esse descanso pode ser dado através de uma atividade definida como lazer casual.
A PLS tem crescido, em parte, mediante a incorporação de algumas outras perspectivas e teorias. Entre elas, a teoria do fluxo, a especialização recreacional e a experiência adquirida pelo lazer. Com a PLS, estamos tendendo a uma teoria geral de lazer, integrando as três formas (sério, casual, etc) a uma variedade de teorias especializadas. A principal contribuição inicial da distinção casual/sério foi mostrar que o lazer não é um fenômeno uniforme, ou seja, o lazer varia consideravelmente, como mostrado pelo mapa PLS.
EFUFSJ: O senhor acredita que a PLS está plenamente desenvolvida ou ainda existem muitas possibilidades de contribuições para esta perspectiva?
Stebbins: Suspeito que a SL sempre necessitará uma nova revisão, pois o mundo do lazer está em constante mutação. Assim, as pessoas perdem o interesse em certas formas mais antigas de lazer, enquanto muitos outros interesses novos estão nascendo. Olhe para todas as novas possibilidades com base em computadores e eletrônica. Será que essas mudanças podem afetar a lista de tipos e subtipos de lazer identificados na PLS? Isso pode acontecer. Por exemplo, o lazer planejado foi acrescentado apenas em 2005. Antes, eu havia utilizado a expressão “atividade aeróbia prazerosa”, em 1994. Shen e Yarnal (Leisure Sciences, 2010) têm questionado o vínculo estabelecido entre o lazer sério e o casual. Enquanto continuarmos a usar uma metodologia exploratória, deveremos ser capazes de descobrir, ao longo do tempo, novos conceitos e proposições. Dito isto, devemos também realizar rotineiramente pesquisas que confirmem essas idéias e proposições estabelecidas, para determinar sua validade e sua distribuição na população. A PLS provavelmente também sofrerá mudanças com uma aplicação internacional. Se o lazer é um elemento cultural universal, a PLS deve refletir essa condição fundamental do ser humano.
EFUFSJ: O senhor encontrou resistência ao propor a PLS?
Stebbins: Nenhuma resistência (de que tenho conhecimento) contra a PLS. Houve uma recepção variada à idéia de lazer sério quando foi introduzida, por volta de 1980. A proposição inicial de 1982 do lazer sério, publicada na Pacific Sociological Review, havia sido anteriormente rejeitada em uma edição especial sobre lazer da Social Forces, publicada na mesma época. No entanto, os estudos do lazer acolheram rapidamente a idéia do lazer sério/casual, com entusiasmo e em escala internacional.
EFUFSJ: Na sua opinião, qual é o estado da arte dos estudos de lazer na América do Norte e ao redor do mundo?
Stebbins: Eu acredito que os estudos do lazer estão se expandindo muito bem em muitas partes do mundo, onde há liberdade e financiamento para pesquisa básica e aplicada. A organização World Leisure está financeiramente saudável. As conferências e congressos realizadas por organizações como ANZALS, LSA e CALS são sempre bem sucedidas, assim como o Simpósio de Pesquisa da NRPA. Temos agora sete jornais de língua inglesa exclusivamente dedicados à informação e dados sobre a teoria do lazer. Vários outros estão sendo publicados em outros idiomas. Como prova adicional, o site da PLS, lançado em abril de 2006, recebe em média 130 acessos por semana, contra uma média de 25 ou menos em 2006. O crescimento das pesquisa em lazer é especialmente forte na China, Taiwan, Coréia e Japão. Porém, é relativamente fraca nos países escandinavos, na Rússia e em seus antigos satélites. Além disso, não conheço nenhum trabalho sobre lazer no mundo islâmico.
EFUFSJ: Professor Stebbins, alguma outra consideração?
Stebbins: O século XXI pertence ao lazer. Haverá, naturalmente, sempre o trabalho, mas este é cada vez mais desagradável e existirá porque as pessoas precisam ganhar a vida. É no seu tempo livre que as pessoas podem desenvolver uma identidade distinta, contribuir substancialmente para suas comunidades, e até mesmo inventar novas maneiras de pensar sobre a vida e encontrar a realização pessoal e prazer. Mais e mais pessoas estão se esforçando para encontrar um estilo de vida equilibrado e positivo que maximize o interessante lazer e minimize o desagradável trabalho e as demais obrigações no não-trabalho. Assim, a pessoa a ser observada neste século é homo otiosus (o homem do lazer), e não o homo faber (o homem do trabalhado). O homo otiosus inclui o homo ludens (o homem do lúdico – lazer casual) e o homo voluntas (homem do voluntariado).
O EFUFSJ agradece à atenção concedida pelo professor Dr. Robert Stebbins.
*Alguns termos mostram-se de difícil tradução. Enquanto “lazer sério” já foi usado em alguns textos nacionais, ainda não encontrei a melhor tradução para a expresão cujo original é “project-based leisure”. Nesse caso, utilizo “lazer planejado”.
Escrito por Gabriel Vargas